Back to those days

Those Days – Del, Leah Yeger

Ela começa bem sutil, só com instrumental, um jazz que te convida sem letras, e com o sintetizador ela cria toda a ambientação, pronto para se imergir dentro desse mundo novo, e eu aceito o convite, na metade da música já estou todo imerso, eu me transporto pra um lugar confortável, quase como se flutuasse dançando.

E aí, vem a letra.

I know we’ve drifted

It’s something that needs to be said

But it’s on my mind

Maybe we’ll take a break

And yeah, something’s shifted

But did it all go too fast?

Maybe let’s take it back

Back to those days

O contexto das letras nunca se fixou na minha cabeça, não presto atenção na letra no dia a dia, mas a voz de Leah é doce, e as frases fazem sentido, as palavras vêm uma atrás da outra, fazendo versos que compõem a melodia, e a música continua agradável como um abraço.

Até que hoje eu li e senti um pouco de agonia, de desconforto.

Eu não sinto agonia ao lembrar de alguma relação em específico, mas sim de estar na mesma situação do eu lírico, em uma relação que já não é mais a mesma, “mudada”, em que ele se questiona se foram rápido demais, e sente vontade de voltar ao passado, e com esperança de que talvez eles se resolvam eventualmente.

Eu passei por isso algumas vezes recentemente, e diferente do eu lírico, dessas vezes eu fui com calma, e mesmo eu indo com calma, com mais calma do que eu jamais havia conseguido gerenciar antes, houve o afastamento, we’ve drifted, e isso me frustra.

Mas ainda acredito que ir com calma é mais saudável, talvez eu só tenha que encontrar um equilíbrio, talvez eu esteja tendo muita paciência com os outros, e me ouvindo pouco.

É difícil, às vezes acontecem várias coisas ruins, uma atrás da outra, e isso mingua sua confiança, isso também atrapalha a gente respeitar os próprios limites.

Talvez seja projeção, mas eu sinto que o eu lírico tá questionando suas ações, tá se questionando, e isso me incomoda porque eu lembro de mim, sempre buscando validação externa.

Depois do último verso, eu recebo mais uma gostosa dose de ambientação.

Or maybe we’ll work it out

E por fim, a esperança. A esperança de que as coisas vão dar certo ainda, pra mim isso é combustível para pessoa se humilhar de novo pra tentar ficar com quem não deu certo. E mais uma vez, isso é projeção, odeio lembrar que já fiz isso, tenho medo de repetir, e o mecanismo de defesa para evitar isso é se martirizar, repulsar essa ideia.

E conscientemente eu sei que todo esse processo não é nada saudável, tá tudo bem ter feito coisas de que você não se orgulha no passado, só aprendemos vivendo, não teria como você ser quem você é se não tivesse essas atitudes.

Mas inconscientemente, no dia a dia, eu nem sempre consigo ter essa visão transparente das coisas, e sinto repulsa quando vejo nos outros o que tenho vergonha em mim.

Então, eu sinto todos esses sentimentos negativos na letra, uma letra bem escrita, cantada por uma voz doce, de uma música redondinha, e assim que ela termina esse último verso, entra um sintetizador que me leva embora, flutuando, nessa ambientação maravilhosa.

Por mais cansativo que possa ser, nunca é o fim. Fico feliz que possamos sentir amor e frustração, melancolia e carinho. Que bom que possamos deixar coisas irem, acabarem e ter outras por perto.

Ocupe os espaços em branco, tente e se não der certo, tente de novo, se movimente.